Sobre remakes de comédias, sequências de comédias e a necessidade de contar algumas piadas pela segunda vez

Um dos grandes lugares-comuns do cinema atual é reclamar de franquias e remakes. Falamos que um quarto filme dos Transformers é desnecessário, resmungamos que a criatividade em Hollywood morreu, questionamos a necessidade de um décimo-oitavo American Pie lançado diretamente em streaming de internet contando como o primo de sexto-grau do sobrinho de uma menina que uma vez ficou com o irmão mais novo do Stiffler perdeu a virgindade ao final do ensino médio. Ficamos amargos com essas coisas.

Mas ao mesmo tempo entendemos que isso é menos uma decisão pessoal ou criativa e mais um sintoma do atual estágio da indústria do cinema. Reconhecimento global da marca pode ser visto como mais importante do que qualidade criativa, uma franquia já estabelecida é menos arriscada do que personagens novos, grandes filmes passaram a envolver somas tão vultuosas que não são mais necessariamente vistos como obras de arte e sim como investimentos, que precisam oferecer o máximo de garantias de retorno e atingir o máximo de categorias demográficas.

E mesmo sendo as comédias filmes costumeiramente mais baratos do que os outros gêneros – ao menos até o Michael Bay decidir que acumulou umas piadas muito fodonas nesses últimos anos – e portanto envolvendo uma necessidade menor de investimento e consequentemente menores riscos financeiros, foram diversas as vezes em que os estúdios embarcaram em projetos de remakes e continuações, quase sempre com resultados no mínimo questionáveis, por uma gama de várias razões.

Primeira a necessidade de “atualizar” comédias clássicas para um senso de humor mais “moderno”, e sério, você pode me imaginar realmente fazendo o sinal de aspas com as mãos enquanto eu digo isso.  Seja transformando o “Professor Aloprado” de Jerry Lewis em uma franquia baseada em piadas sobre flatulência ou transformando a “Pantera Cor de Rosa” de Peter Sellers num festival de piadas dúbias sobre a França, fica claro que o que boa parte dos estúdios vêem como modernizar acaba sendo amplificar o teor físico da comédia, apostar num humor mais grosseiro e em certos casos até mesmo ridicularizar aspectos do original, técnica essa que não vem gerando exatamente os melhores resultados em termos criativos – um dos poucos casos de sucesso usando essa técnica foi o remake de “Anjos da Lei”, que usou a premissa séria mas absurda da série antiga de forma cômica.

Outro problema é a necessidade atual de transformar em franquia qualquer filme que possa ter tido algum nível moderado de sucesso, sem se preocupar se o filme realmente tem potencial para alguma continuação. Um exemplo clássico é “Se beber não case”, que ainda que não seja um filme brilhante, foi divertido na primeira vez, forçado na segunda e apenas absurdo na terceira, ficando claro que não havia nenhuma preocupação criativa além de “vê o que deu certo no outro, repete, coloca aquele chinês engraçado, eu adoro aquele chinês”.

Isso quer necessariamente dizer que todo remake ou sequência de uma comédia é necessariamente ruim? Ainda que a existência de filmes como o Arthur do Russel Brand ou as sequências dos Professor Aloprado nos façam imaginar que sim, a resposta na verdade é que “não necessariamente”. Elas apenas precisam ser pensadas de maneira mais cuidadosa e inteligente do que vem sendo pensadas.

Isso porque modernizar uma premissa ou atualizar um conceito é bem mais complicado do que parece. Algumas tramas estão diretamente enraizadas no período histórico em que foram criadas e é primeiro preciso pensar se aquele conceito ainda tem alguma ressonância com o público atual ou mesmo se aquele tipo de humor ainda faz sentido nos dias de hoje – o caso do “remake” dos Três Patetas, por exemplo. Ao mesmo tempo, quando você decide refilmar/continuar uma comédia você está enfrentando toda a expectativa de um remake/continuação, que é imensa, e ainda tem o desafio extra de toda comédia de ser engraçada e desafiar as expectativas de uma obra que já era, anteriormente, um desafio as expectativas, como sempre acontece com o humor.

Ou seja, remakes de comédia não são necessariamente ruins. Mas a forma como eles vem sendo feitas tá sendo bem horrível.

Ps: Esse texto não teria sido possível sem a notícia de que Ed Helms irá protagonizar um remake/continuação para “Corra que a Polícia vem aí”.

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