Charlie Brooker, o papa dos idiotas

Ismael Alberto Schonhorst alternou momentos como escritor não publicado (de romance, poesia, teatro e rádio), humorista fracassado, diretor de cinema independente, filósofo por existência, linguista por obrigação, redator por sobrevivência, músico amador (influências: de Bach ~ Wagner), futurista anacrônico, zen anarquista por ideologia, pesquisador/teórico por vontade e professor por vocação. Seu twitter é @ismalb

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Enquanto nos EUA, mesmo nos movimentos mais alternativos, parece que a preocupação máxima é o estabelecimento de um cenário cultural regado à fama das espécies, na Inglaterra existe uma tradição de desconstrução que perdura em seu método frio de mostrar o quanto somos idiotas.

Este espírito está tanto no mainstream – vejamos no caso da música, como os Beatles que se construíram para depois se destruírem, e nisso se tornarem mitos – até no underground, com bandas como Throbbing Gristle, que fizeram mais pela dialética pós-moderna do que todos os filósofos franceses juntos. Claro, os EUA é o berço da cultura do remix, mas ela sempre dependeu de signos bem claros para se desenvolver, enquanto isso a Inglaterra ia ao cerne da questão, tratando mais de gêneros do que de marcos específicos para formar a grande obra de pátria não conformista.

Quando tratamos de humor, isso não poderia ser diferente. Seja gestando-se nesta categoria, com gênios como Freddie Star, ou a trupe do Monty Python, seja absorvendo comediantes de outros lugares, como Bill Hicks, Doug Stanhope ou Jim Jefferies, a anarquia ali fazia sentido, enquanto no lado de cá do Atlântico, na América, a anarquia parece ser antes grife. Mas e quando as barreiras começam a cair e cada vez mais nos tornamos globalizados?

Antigamente a UK era sinal de estranhamento não só para os EUA, mas para a América como um todo. Aos poucos compreendemos, aceitamos, e depois nos projetamos*, até chegar ao ponto em que a relação se torna recíproca. Como os britânicos lidarão com isso, agora que existe uma MTV2 ao toque do botão, para ditar linguagem e hábitos para os propagadores da cultura? A questão chega ao ponto de que no começo dos anos 90 o Channel Four, junto com parte da equipe da BBC, faz um documentário sobre o cenário cultural britânico, o Buzz, que depois é exportado e passa na MTV dos EUA e do Brasil como se aquela cultura fosse a mesma que a nossa. Cadê aquele estranhamento de antigamente? O que faremos? O que farão eles?

Nos últimos anos, então, surge por lá uma leva de diretores inspirados, que perceberam que estamos massificados, e que isso não é somente um conceito para vender vã filosofia em troca de dinheiro de bolsa para alunos de humanas. Afiados, de talento ímpar para a coisa, eles passam a entender, e novamente desconstruir, os gêneros globais, sejam esses gêneros narrativos ficcionais ou narrativos cotidianos, o que virou nossa vida depois dos tubos e das transmissões. Neil Marshall, Stephen Moffatt, Neil Cross, Edgar Wright, Ben Wheatley, e o motivo deste texto, Charlie Brooker.

No cenário satírico inglês, este genial crítico, roteirista, diretor, produtor, criador, etc., tem se destacado como uma mistura perfeita entre Stewart Lee e Adam Curtis – ou seja, nem ao céu dos documentários, nem ao inferno da comédia, mas sim um blend em que você não sabe quando começa um e acaba outro. Começou a sua carreira como um atípico resenhista de videogames, já que graças a sua notada capacidade de reclamar de forma ácida e irônica (segundo ele desde que era criança), sem parecer um rebelde sem causa, ganhava para criticar os piores jogos que saiam nos idos anos 90. Ainda não se vendo como cômico, foi motivo para a gestão de uma popular tirinha, que depois assumiu a conta de escrevê-la, a Cyberwats, e também uma coluna, onde começou a quebrar barreiras dentro da revista, a Sick Notes. Nela, desafiava os leitores a enviarem cartas ofensivas para a revista, ridicularizando a coisa de fanboys de games, e suas brigas estúpidas para saber qual empresa ou console é mais interessante.

Tomou gosto pela ideia e começou a enviar quadrinhos metacríticos para várias publicações, chegando ao ápice da extrapolação de imprensa ao criar uma revista fictícia aos moldes do TV Guide, anunciando programas ridículos, que não faziam sentido, mas que de certa forma pareciam realistas, comparado ao que era exibido na TV (e olha que ainda não tinha virado o século). TVGoHome, esta revista, virou website, ganhou spin-off em outros sites e mídias cyber, como a newsletter Unnovations, o que fez com que o jornal Guardian chamasse o rapaz para ser um dos críticos do caderno de entretenimento da sua edição impressa. Nisso ele já tinha escrito alguns episódios de 11 O’Clock Show (uma versão britânica do Weekend Update do Saturday Night Live) juntamente com outros hoje famosos, como Ricky Gervais e Sacha Baron Cohen, e também o infame episódio sobre pedofilia de Brass Eye, criação de outro anarquista do humor britânico, Chris Morris, onde simulam reportagens nos estilo das que temos aqui no Globo Repórter, mas com um toque de bizarrice a la The Eric Andre Show (com uma pedrinha dentro do sapato).

Suas colunas no Guardian são espetaculares, e ouso dizer que se tratam dos melhores textos já escritos sobre o quão estúpidos somos enquanto povo global. Charlie ali novamente não consegue se limitar ao que é proposto, já que foi chamado para escrever sobre TV, mas acaba falando não apenas sobre Big Brother e X Factor (o que faz muito bem, diga-se de passagem), mas também sobre manias, vícios e medos, dele e de todos nós. Sua ScreenBurn, nome da coluna, fica pequena para tanto assunto, e para tanta virulência que ele começa a desenvolver em suas páginas, o que obriga o Guardian a dar outras páginas que não estas para ele, e então vamos ler sobre baratas, sobre diarreia, e sobre o presidente Bush. Tudo isso está compilado em vários livros, que se fazem necessários a qualquer pessoa interessada em como seria um Paulo Francis viciado em peixe com batatas fritas lidando com o cenário caótico deste novo milênio.

Sua genialidade não ficou só nisso, é claro. Na TV temos mais brilho ainda. Em 2003 ele faz um pequeno manual ensinando como assistir televisão, chamado How to Watch Television (dããã) para um programa supostamente sobre arte do Channel Four. O pessoal do canal fica chocado com a ridicularização que ele faz da própria emissora, e de seus propósitos em relação com o telespectador, mas compra a ideia e o contrata para outro show da casa, o mediano Spoons. Ali ele entra oficialmente como força criativa da produtora que de agora em diante produz todos os seus projetos, a Zeppotron.

Disso aparece uma pérola desconhecida fora da Inglaterra, o excelente Nathan Barley. Escrotização mordaz da cultura hipster emergente, começando por colocar um escritor que trabalha numa revista chamada SugarApe, nada mais nada menos do que uma espécie de Vice, e que escreve um artigo chamado “The rise of the idiots”. Este artigo faz sucesso justamente entre os atacados, que não se percebem, ao contrário do próprio autor, como os grandes idiotas que são. Restringindo o ataque a um grupo, Charlie consegue atacar de forma mais mordente e discreta o momento filosófico que vivemos do que fez Bobcat Goldthwait alguns anos atrás com o (não me entendam mal, este também é um ótimo filme) God Bless America. Nathan Barley, um promoter que acaba conhecendo o tal escritor, é a condensação da infantilidade que vivemos, e da vontade de aparecer não por méritos, mas por estupidificações que chamado de “estilo”. Existe um Nathan Barley em todos nós, diz o Brooker.

A série se tornou cult no país de origem, e despertou o interesse dos produtores da BBC, que chamaram o autor para escrever um programa na TV nos moldes de sua coluna de revista. Surgiu assim o ótimo Charlie Brooker’s Screenwipe, e depois seus spin-offs, Newswipe, GameswipeWeeklyWipe, sempre restringindo temas para fins de produção, como se nota nos títulos, mas ao mesmo tempo desconstruindo limite, bem como sua coluna fazia. Veremos uma resenha de jogos que fala sobre política, uma análise de notícia econômica que joga do imbecil nossas pretensões existenciais, e piadas de peido tão poéticas que poderiam terem sido escritas por Shakespeare, Milton ou Joyce. Neste meio tempo escreve How TV Ruined Your Life, uma espécie de continuação daquele anterior manual sobre televisão, agora focando em tópicos específicos de assuntos (do amor até a morte) onde perdemos a noção da realidade por culpa da dialética infernal dos televisores. Esta série por si só deve ser melhor do que toda a produção acadêmica sobre o assunto nos últimos 20 anos.

Nos últimos anos fez algumas coisas para a rádio, como o hilário So Wrong It’s Right (aparentemente inspiração para o Muito Amor, da equipe do Overcast), e continuando na TV também escreveu outras três séries de culto dos últimos anos, a comédia A Touch of Cloth (algo como uma versão inglesa e inteligentíssima de Corra que a Polícia Vem Aí), e os dois dramas: Dead Set (um Walking Dead envolvendo subcelebridades de um Big Brother genérico), e o fantástico-é-pouco-assista-urgentemente Black Mirror, que é uma tão cruel e ao mesmo tempo tocante análise da influência das novas tecnologias na desumanização de nossa existência que seus episódios estão sendo disputados a tapa para remake por estúdios norte-americanos. Eu teria achado o novo filme do Spike Jonze, Her, excelente, se antes dele não tivesse existido Black Mirror.

E então, eis o homem, o criador de grandes maravilhas do entretenimento e do pensamento contemporâneo, um comediante tão impraticável que se torna necessário em tempos onde estamos tão confusos sobre o que é o humor, um amigo que popularizou séries como The Wire e Breaking Bad na Inglaterra (e ainda acho que no mundo, indiretamente, mas isso é outro assunto), um cara tão chato que se torna queridíssimo entre nós, seres bem humorados, e tão inconformados, tanto que rimos, e rimos de nós mesmos, e assumimos que somos idiotas, e é isso que se chama humor.

*Desculpem-me o tom de texto que faz com que pareçamos norte-americanos, mas, honestamente, culturalmente nós que nos relacionamos com a comédia, de certa forma somos, certo?

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4 pensamentos sobre “Charlie Brooker, o papa dos idiotas

  1. Black Mirror é excelente, eu sou tomado por essa mesma urgência de convencer meus amigos a assistirem sempre que me lembro dela também. O fenômeno da idiotização em massa nunca foi tão bem explorado.

  2. Ótimo review. Não vejo a hora de assistir a algumas das dicas… As vezes fico com a impressão que é muito difícil discutir as tendencias atuais com alguém que desconheça esse cara!

  3. “*Desculpem-me o tom de texto que faz com que pareçamos norte-americanos, mas, honestamente, culturalmente nós que nos relacionamos com a comédia, de certa forma somos, certo?”

    Isso é um fato.

    Pra quem não conhecia o trabalho do homem, esse texto apareceu como um caldeirão de sugestões. Fiquei meio perdido, por que não conhecia a maioria das referências. Você demonstrou muito conhecimento mas pra mim foi um pouco imprático. De toda forma, achei bastante interessante e vou procurar o trabalho de Charlie, uma vez que gosto mais de de qualquer coisa, não só de humor, quando esta traz um pouco de questionamento existencial.

    Abraços

  4. Não conheço absolutamente nada do trabalho de Charlie, por isso mesmo o conhecimento dele me afetou pelo tom sarcástico com que você fala dele. Pelas ilustrações intercaladas em seu texto, a gente percebe o quanto você já está criativa e positivamente absorvido por este tipo de humor .

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